China impõe tarifa de 55% sobre carne bovina brasileira

Ministério do Comércio da China cria imposto pesado para importações que excederem limites anuais; decisão atinge Brasil, Argentina e Estados Unidos.

O Ministério do Comércio da China anunciou nesta quarta-feira (31) uma decisão que altera profundamente o comércio global de proteínas. O país asiático aplicará uma tarifa adicional de 55% sobre as importações de carne bovina que excederem cotas específicas a partir de amanhã. A medida de salvaguarda atinge diretamente o Brasil, que é atualmente o maior fornecedor mundial de carne vermelha para o mercado chinês.

A nova regra entra em vigor já no primeiro dia de 2026 e deve permanecer ativa pelos próximos três anos. O governo chinês estabeleceu uma cota de 1,106 milhão de toneladas sem cobrança extra para os exportadores brasileiros. Além do território nacional, nações como Argentina, Uruguai e Estados Unidos também enfrentarão as mesmas restrições tarifárias em seus embarques.

A investigação que culminou nesta decisão foi iniciada em dezembro de 2024 após pressões de associações de produtores locais na China. Autoridades chinesas alegam que o aumento massivo das importações causou um dano grave à indústria doméstica de criação de gado. A medida visa estabilizar os preços internos no país asiático, que sofreram quedas acentuadas ao longo de 2025.

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O anúncio gera uma onda de incerteza em toda a cadeia produtiva do agronegócio no Brasil. O ano de 2025 foi marcado por volumes recordes de abate e exportação, consolidando a hegemonia brasileira no setor. Entretanto, a nova barreira comercial pode restringir o fluxo de embarques em aproximadamente 600 mil toneladas em comparação ao total exportado este ano.

Impacto direto na arroba e no produtor

A pecuária brasileira encerra o calendário com números históricos, mas agora encara um cenário de cautela máxima para 2026. Analistas do setor afirmam que a limitação das vendas externas pode forçar um aumento da oferta de carne no mercado interno brasileiro. Consequentemente, existe uma tendência real de queda nos preços pagos pela arroba do boi gordo nas principais praças paulistas.

O setor de confinamento deve ser o primeiro a sentir os efeitos do rearranjo estratégico necessário para contornar as novas tarifas. Muitos produtores que investiram no chamado Boi China precisarão buscar mercados alternativos para evitar prejuízos operacionais imediatos. Todavia, encontrar destinos que absorvam o mesmo volume do mercado chinês é um desafio logístico e diplomático sem precedentes.

A competitividade da carne brasileira ainda é sustentada pela desvalorização do Real frente ao Dólar em patamares elevados. No entanto, o custo adicional de 55% sobre o valor da proteína inviabiliza financeiramente o comércio além dos limites das cotas. A indústria frigorífica precisará monitorar diariamente o preenchimento desses limites para evitar taxas que corroem as margens de lucro de forma fatal.

Geopolítica e o futuro das exportações

As autoridades brasileiras e as entidades de classe já iniciaram conversas para entender a aplicação técnica das medidas de salvaguarda impostas por Pequim. A China argumenta que a ação não visa restringir o comércio normal, mas sim oferecer um alívio temporário aos criadores locais. O total de cotas mundiais será elevado gradualmente até 2028, atingindo 2,8 milhões de toneladas ao final do período.

O Brasil encerrou novembro de 2025 com uma participação de quase 54% de toda a sua carne exportada indo para o país asiático. Essa dependência excessiva torna o agronegócio nacional vulnerável a mudanças repentinas na política comercial de apenas um parceiro estratégico. O governo federal deve intensificar a busca por novos mercados, como Japão e Coreia do Sul, para diluir esse risco geopolítico crescente.

Pequim confirmou que as cotas não utilizadas em um ano não poderão ser transferidas para o exercício fiscal seguinte. Esse rigor administrativo exige uma coordenação precisa entre os órgãos de fiscalização sanitária e as empresas exportadoras brasileiras. O mercado aguarda agora a reação oficial do Ministério da Agricultura diante do menor volume exportado em 2025 que poderá ocorrer sob as novas regras em 2026.

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