Irã: Populares expulsam forças do regime em funeral

O funeral de Amir Hesam Khodayari tornou-se palco de resistência em Kuhdasht, onde manifestantes derrubaram símbolos estatais e confrontaram a Guarda Revolucionária na última madrugada.

A cidade de Kuhdasht, na província de Lorestan, tornou-se o epicentro de uma revolta popular sem precedentes nesta sexta-feira. Durante o funeral do jovem Amir Hesam Khodayari, de 22 anos, moradores locais enfrentaram e expulsaram aproximadamente 50 membros das forças paramilitares Basij e da Guarda Revolucionária do Irã (IRGC).

O clima de tensão escalou rapidamente após as autoridades tentarem interferir na cerimônia fúnebre do rapaz, que foi morto em circunstâncias controversas durante a última semana.

De acordo com relatos de testemunhas e vídeos que circulam nas redes sociais, a multidão não apenas impediu a presença das forças oficiais, mas também agiu de forma direta contra os símbolos do governo. Manifestantes furiosos derrubaram todas as bandeiras de condolências instaladas pelo regime no local, substituindo o luto oficial por gritos de ordem contra a ditadura religiosa. O confronto físico resultou na retirada forçada dos agentes, que se viram em menor número diante da massa de cidadãos indignados.

Amir Hesam Khodayari faleceu após ser atingido por disparos de arma de fogo na madrugada de 31 de dezembro de 2025. Enquanto o governo tenta emplacar uma narrativa de que o jovem seria um membro da própria milícia Basij, familiares e organizações de direitos humanos negam a versão. A família denunciou pressões intensas de oficiais do Estado para aceitar a rotulagem de “mártir do regime”, condição imposta inicialmente para a liberação do corpo.

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A resistência em Kuhdasht reflete um sentimento de esgotamento que se espalha por diversas províncias iranianas neste início de 2026. A morte de Khodayari serviu como um catalisador para a população local, que já enfrentava restrições severas e uma vigilância constante por parte das forças de segurança. A expulsão dos agentes representa um marco simbólico, indicando que o medo imposto pelo aparato estatal está sendo desafiado abertamente por comunidades inteiras.

O conflito de narrativas e a pressão estatal

A estratégia do regime de rotular vítimas de protestos como membros de suas próprias forças é uma prática documentada por analistas internacionais para tentar esvaziar a pauta das manifestações. No caso de Kuhdasht, a tentativa de cooptar a imagem de Amir Hesam Khodayari falhou devido à resistência pública de seu pai e da comunidade local. A recusa em aceitar as bandeiras do regime no funeral foi o ponto de ruptura que levou ao confronto direto com os 50 agentes presentes.

Os eventos de hoje são acompanhados de perto por observadores externos, uma vez que a província de Lorestan possui um histórico de resistência ferrenha. Segundo os dados oficiais coletados por organizações de monitoramento, o uso de munição real contra civis tem sido a resposta padrão do governo em áreas periféricas. Esse cenário de violência estatal tem alimentado o ciclo de funerais que, invariavelmente, acabam se transformando em novos focos de protesto político em todo o território nacional.

A instabilidade econômica e a queda drástica no valor da moeda local também potencializam a fúria popular que vimos nesta madrugada. Conforme as atualizações mais recentes sobre o levante nacional, os protestos já entram em seu sexto dia consecutivo de intensificação. O governo iraniano, por sua vez, mantém o bloqueio de informações em algumas regiões, mas a força das imagens vindas de Kuhdasht furou o cerco digital e ganhou repercussão global.

Consequências para a Guarda Revolucionária

A expulsão de membros da IRGC de um espaço público sob controle da população civil é um golpe na imagem de invencibilidade da instituição. Históricamente, a Guarda Revolucionária e sua ala voluntária, os Basij, mantêm o controle através da presença ostensiva em rituais religiosos e cívicos. O que ocorreu no funeral de Khodayari demonstra que o regime está perdendo a capacidade de impor sua presença sem recorrer ao uso letal da força, o que pode isolar ainda mais o país diplomaticamente.

Analistas sugerem que a morte do jovem de 22 anos pode se tornar um símbolo similar ao de Mahsa Amini em 2022, dada a semelhança na revolta gerada pelas mentiras oficiais. A população iraniana parece estar cada vez mais disposta a arcar com os riscos do confronto físico para recuperar a soberania sobre seus próprios mortos e ritos de passagem. O destino das forças expulsas e a possível retaliação do regime em Kuhdasht serão monitorados intensamente nas próximas 48 horas.

O mundo agora observa se esse modelo de resistência comunitária será replicado em outras grandes cidades. A queda das bandeiras do regime em Kuhdasht não foi apenas um ato de vandalismo, mas uma declaração política de que a autoridade de Teerã não é mais reconhecida naquela região. Enquanto o luto continua, a batalha pela verdade sobre quem era Amir Hesam Khodayari permanece no centro da disputa entre o povo e o Estado iraniano.

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