Milei mostra Brasil como favela em mapa polêmico

Publicação divide continente entre países de esquerda, retratados como favelas, e nações de direita, ilustradas como regiões futuristas, gerando repercussão internacional

O presidente da Argentina, Javier Milei, publicou nesta segunda-feira (15) uma ilustração polêmica nas redes sociais. A imagem retrata o Brasil e outros países sul-americanos governados pela esquerda como regiões favelizadas. Em contrapartida, nações com governos de direita aparecem como áreas desenvolvidas e futuristas.

A postagem ocorreu um dia após a vitória do candidato ultraconservador José Antonio Kast nas eleições presidenciais do Chile. Kast obteve 58,2% dos votos contra 41,7% da candidata de esquerda Jeannette Jara, segundo dados do Serviço Eleitoral chileno.

Na ilustração compartilhada por Milei, o mapa sul-americano aparece dividido em duas partes distintas. De um lado, Brasil, Uruguai, Venezuela, Guiana, Suriname, Guiana Francesa e Colômbia são representados como uma grande favela, com ruas sem asfalto e construções precárias.

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Do outro lado, Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Bolívia e Peru surgem retratados com arranha-céus, infraestrutura moderna e cenário urbano desenvolvido. A divisão segue critérios ideológicos baseados na orientação política dos governos atuais de cada país.

Além da ilustração, Milei compartilhou outra publicação com um mapa colorido. Nessa versão, países governados pela esquerda aparecem em vermelho, enquanto nações comandadas pela direita surgem em azul. A legenda reforça o discurso ideológico com a frase “a esquerda retrocede e a liberdade avança”.

Mapa polêmico de Milei causa repercussão regional

A publicação do presidente argentino gerou ampla repercussão nas redes sociais e na imprensa internacional. Diversos veículos de comunicação brasileiros destacaram a postagem, que muitos classificaram como uma provocação diplomática ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Ilustração do mapa da América do Sul dividido entre favelas e arranha-céus conforme orientação política dos governos, publicada por Javier Milei
Ilustração compartilhada por Milei retrata países governados pela esquerda como favelas e nações de direita como regiões futuristas. Brasil aparece na parte favelizada do mapa, enquanto Argentina surge com arranha-céus modernos. (Foto: Reprodução/Redes Sociais/Javier Milei)

 

O portal g1 informou que entrou em contato com o Itamaraty para obter um posicionamento oficial sobre a postagem. Até o fechamento desta edição, o Ministério das Relações Exteriores não havia se manifestado publicamente sobre o caso.

A estratégia de Milei de utilizar redes sociais para marcar posições políticas e ideológicas não é novidade. O presidente argentino frequentemente se posiciona como um dos principais líderes do campo liberal-conservador na América Latina, usando plataformas digitais para amplificar seu discurso.

Brasil e Argentina em lados opostos da divisão ideológica

A imagem publicada por Milei reflete o atual momento político da América do Sul. Com a vitória de Kast no Chile, o continente passa a ter seis países governados por lideranças de esquerda e seis por governos de direita, segundo análise de especialistas.

A esquerda atualmente governa Brasil, Colômbia, Guiana, Suriname, Uruguai e Venezuela. Já a direita está no comando de Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai e Peru, consolidando um equilíbrio político que não existia no início de 2025.

O cenário representa uma mudança significativa em relação ao começo do ano, quando oito países sul-americanos eram administrados por governos progressistas. Desde então, Chile, Bolívia e Peru realizaram eleições que resultaram na substituição de presidentes de esquerda por nomes alinhados à direita.

Vitória de Kast consolida guinada conservadora no continente

José Antonio Kast, de 59 anos, venceu as eleições chilenas com uma margem expressiva de quase 20 pontos percentuais. O resultado marca o retorno da direita ao Palácio de La Moneda após quatro anos de governo liderado por Gabriel Boric.

Kast construiu sua campanha com base em três pilares principais: combate ao crime organizado, controle rigoroso da imigração e reformas econômicas liberais. O candidato propôs fechar as fronteiras para imigrantes sem documentação, construir muros e expandir o sistema prisional.

Além disso, o presidente eleito defende redução de impostos para grandes e médias empresas, reforma da previdência e cortes nos gastos públicos. Analistas avaliam que o programa econômico de Kast se inspira em políticas adotadas por governos conservadores como os de Donald Trump nos Estados Unidos e Nayib Bukele em El Salvador.

A vitória chilena foi celebrada por diversos líderes de direita na região. Milei foi um dos primeiros a parabenizar Kast, afirmando em publicação no X que sentiu “enorme alegria com a vitória esmagadora” do candidato conservador.

Relações tensas entre Brasil e Argentina se aprofundam

As publicações de Milei ocorrem em um contexto de relações tensas entre Brasil e Argentina. Os dois países, historicamente parceiros no Mercosul, têm protagonizado atritos diplomáticos desde a eleição do presidente argentino em 2023.

Milei já manifestou publicamente diversas vezes a possibilidade de a Argentina deixar o Mercosul. O presidente argentino argumenta que o bloco econômico “só serviu para enriquecer os grandes industriais brasileiros às custas de empobrecer os argentinos”.

O governo brasileiro tem adotado uma postura de não responder diretamente às provocações do líder argentino. Fontes do Itamaraty avaliam que rebater publicamente as declarações de Milei poderia amplificar a repercussão e dar mais visibilidade ao discurso do presidente vizinho.

Contexto político regional passa por transformação acelerada

A mudança no mapa político sul-americano reflete uma onda conservadora que vem ganhando força em diferentes países da região. Analistas apontam que a insatisfação com governos progressistas, aliada a questões como criminalidade e crise econômica, tem favorecido candidatos de direita.

O presidente do Equador, Daniel Noboa, também celebrou a vitória de Kast. Noboa afirmou que o resultado “abre uma nova etapa para o Chile e para a região”, reforçando o discurso de mudança política no continente.

Políticos brasileiros da direita manifestaram apoio ao novo presidente chileno. O deputado federal Eduardo Bolsonaro publicou que “em 2026 será a vez” de seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro, indicando expectativas eleitorais para o pleito presidencial brasileiro.

Desafios políticos aguardam novo presidente chileno

Apesar da vitória expressiva, Kast assume a presidência com desafios institucionais relevantes. O Congresso chileno permanece dividido, com o Senado igualmente repartido entre partidos de esquerda e direita, segundo dados oficiais.

A câmara baixa tem o voto decisivo do Partido Popular, de orientação populista. Essa configuração deve exigir negociações constantes para aprovar reformas estruturais propostas pelo novo governo, especialmente as relacionadas a ajustes fiscais e mudanças trabalhistas.

Analistas avaliam que as propostas mais radicais de Kast provavelmente enfrentarão resistência no Parlamento. Mudanças nas leis de aborto, por exemplo, exigiriam apoio de mais da metade do Congresso para serem aprovadas, o que parece improvável no atual cenário.

A posse do novo presidente chileno está prevista para 11 de março de 2026. Kast já anunciou que fará sua primeira visita internacional à Argentina, onde se reunirá com Milei na Casa Rosada para estreitar a aliança política entre os dois países.

Mercado financeiro reage positivamente à vitória conservadora

O mercado financeiro chileno reagiu com otimismo à eleição de Kast. Analistas do Bradesco BBI avaliam que a vitória “gera um choque positivo nas expectativas de curto prazo para a economia real e o ritmo da atividade econômica”.

No cenário base do banco, a bolsa chilena tem espaço para valorização de aproximadamente 21% em dólares. Em um cenário mais otimista, esse percentual poderia ultrapassar 50%, segundo projeções dos analistas.

O peso chileno e o mercado de ações já apresentaram valorização nas primeiras horas após o resultado eleitoral. Investidores demonstram expectativas de menos regulamentação e políticas mais favoráveis ao mercado sob o novo governo.

O Chile é o maior produtor mundial de cobre e um importante produtor de lítio. A perspectiva de políticas econômicas mais liberais atrai investidores estrangeiros interessados na exploração desses recursos estratégicos para a transição energética global.

Postagem reflete estratégia de comunicação do presidente argentino

A divulgação do mapa polêmico faz parte da estratégia de comunicação de Milei, que utiliza intensamente as redes sociais para amplificar seu discurso político. O presidente argentino mantém perfis ativos no Instagram, X (antigo Twitter) e outras plataformas digitais.

Milei constrói sua narrativa política em torno da oposição ao que chama de “socialismo empobrecedor”. O líder argentino frequentemente contrasta seu modelo econômico liberal com as políticas progressistas adotadas por governos de esquerda na região.

A publicação ocorreu no mesmo dia em que diversos políticos de direita na América Latina celebraram a vitória de Kast. O presidente do Equador, governadores brasileiros e líderes conservadores manifestaram apoio ao resultado eleitoral chileno.

A imagem original foi criada por apoiadores de Milei e posteriormente repostada pelo presidente argentino. No post original, os autores escreveram: “O povo sul-americano grita liberdade. Basta de socialismo empobrecedor”.

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