O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, anunciou uma mudança radical na postura diplomática de Kiev, declarando-se disposto a abrir mão da adesão à OTAN em troca de um acordo de garantias de segurança vinculativas e concretas com seus aliados ocidentais. Esta concessão, considerada um dos maiores entraves para o fim do conflito, foi feita em uma declaração à mídia internacional.
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Zelensky enfatizou que a Ucrânia não pode ser deixada sozinha e desprotegida. A exigência é que essas garantias de segurança sejam implementadas antes de qualquer negociação de paz com a Rússia. O presidente ucraniano destacou que, diante da impossibilidade de adesão à OTAN no curto prazo, seu país precisa de um “mecanismo forte” que garanta sua soberania e integridade territorial contra futuras agressões.
A desistência da adesão à Aliança Atlântica é um movimento sísmico na geopolítica da guerra. A expansão da OTAN para o leste é citada pelo Kremlin como a principal justificativa para a invasão de 2022. Ao sinalizar essa abertura, Zelensky busca remover o que seria o último obstáculo diplomático para forçar Moscou a sentar-se à mesa de negociações. A bola agora está no campo da Rússia e dos aliados ocidentais.
O Dilema da OTAN e a Condição de Neutralidade
Desde o início da invasão, a Ucrânia buscava ativamente a adesão à OTAN, baseada no Artigo 5, que considera um ataque a um membro como um ataque a todos. Contudo, a Aliança tem sido cautelosa, evitando a entrada de um país em guerra para não ativar o Artigo 5 e iniciar uma guerra aberta com a Rússia.
A nova proposta de Zelensky reflete um realismo brutal: se a OTAN não pode protegê-lo agora, ele precisa de algo que o faça. Ele está essencialmente trocando o sonho da proteção coletiva pelo que ele espera ser uma garantia de segurança imediata e prática, com o apoio explícito de potências mundiais.
Essa exigência de garantias de segurança é a nova linha vermelha de Kiev. Zelensky quer um acordo que vá além de simples memorandos. Ele busca um pacto que inclua apoio militar e financeiro rápido, além de sanções automáticas à Rússia em caso de qualquer nova agressão.
Garantias de Segurança: O que a Ucrânia Realmente Quer
O conceito de “garantias de segurança” proposto por Kiev é modelado em acordos de defesa mútua, mas sem o peso institucional da OTAN. A Ucrânia espera que países como Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e Turquia assinem um pacto que inclua:
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– Entrega Imediata de Armamentos: Um fluxo constante e garantido de armas e munições de alta tecnologia, sem as longas discussões burocráticas atuais.
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– Defesa Aérea e Antiaérea: Um compromisso de defesa aérea que crie uma espécie de “escudo” protetor sobre o território ucraniano.
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– Treinamento Militar: Continuação e expansão dos programas de treinamento das forças ucranianas.
A renúncia à OTAN é a moeda de troca que Zelensky oferece para selar este novo pacto. Sem essas garantias firmes, ele sinalizou que a Ucrânia não considerará encerrar o conflito.
Os Próximos Passos de Moscou e Washington
A declaração de Zelensky coloca o presidente russo, Vladimir Putin, sob pressão. A desmilitarização e a neutralidade da Ucrânia eram dois dos objetivos declarados da invasão. Com a principal exigência de neutralidade atendida, Putin perde parte da justificativa retórica para a guerra prolongada.
O Kremlin ainda não deu uma resposta definitiva à concessão ucraniana. Analistas políticos russos sugerem que Moscou pode tentar minar as propostas de garantias de segurança, exigindo que elas sejam fracas e não envolvam grandes potências ocidentais. A Rússia não aceitará um “substituto da OTAN” em suas fronteiras.
Já os Estados Unidos e a Europa agora enfrentam o desafio de definir a natureza e o escopo exato dessas garantias. O que exatamente eles estão dispostos a prometer e até que ponto estão dispostos a ir para defender a Ucrânia em um futuro pós-guerra? O receio é que um pacto demasiado forte possa ser visto pela Rússia como uma provocação direta.
A Cronologia Geopolítica e a Pressão Interna
A mudança de postura de Zelensky ocorre em um momento de intensa pressão militar russa no leste e sul da Ucrânia. O conflito tem se arrastado, e o apoio ocidental, embora robusto, tem mostrado sinais de fadiga em alguns países europeus.
A declaração do líder ucraniano também serve a um propósito interno: ele mostra à população que está disposto a fazer sacrifícios pela paz, desde que a segurança do país não seja comprometida. “Temos que ser honestos: a Ucrânia não entrará na OTAN agora,” disse Zelensky, reconhecendo uma dura realidade.
O debate sobre a neutralidade e as garantias de segurança tem sido central nas conversas de paz realizadas na Turquia. Embora as negociações tenham esfriado recentemente, a manobra de Zelensky é vista como uma tentativa de reaquecê-las, colocando um novo e substancial item na mesa.
Zelensky e a Batalha Pela Sobrevivência Nacional
O presidente ucraniano tem sido incisivo ao afirmar que a Ucrânia não pode ser reduzida a um “tampão” desprotegido entre a Rússia e a OTAN. A experiência histórica, particularmente o Memorando de Budapeste de 1994, onde a Ucrânia cedeu seu arsenal nuclear em troca de garantias de segurança não vinculativas (e que foram totalmente ignoradas pela Rússia), serve de alerta.
Desta vez, a Ucrânia exige que as garantias sejam ratificadas pelos parlamentos dos países signatários. O tratado deve incluir um mecanismo de consulta obrigatória e ação imediata em caso de ataque, similar ao Artigo 5 da OTAN, mas sem a adesão formal à Aliança.
A diplomacia de Zelensky agora se concentra em converter sua concessão sobre a OTAN em um ganho real de segurança. O futuro da Ucrânia e a estabilidade da Europa dependem da capacidade dos aliados de responderem a esta exigência com um pacto que seja forte o suficiente para dissuadir Moscou, mas que não provoque uma escalada ainda maior.