A icônica tela “Sol Poente” (1929), uma das produções mais valiosas da fase antropofágica de Tarsila do Amaral, tornou-se o epicentro de uma nova turbulência judicial nesta semana. A polêmica ganhou força após uma postagem nas redes sociais mostrar o quadro encostado no chão da casa de Roberto Setubal, ex-presidente do Itaú. A imagem, publicada pela ex-esposa do banqueiro, Daniela Fagundes, foi apagada minutos depois, mas o registro foi suficiente para acionar autoridades e herdeiros.
O caso envolve o espólio do colecionador Jean Boghici, falecido em 2015, cuja herança é alvo de um processo de inventário conturbado. A Justiça do Rio de Janeiro determinou anteriormente que as obras do acervo não podem ser vendidas ou expostas sem autorização prévia. A aparição da obra em um ambiente privado levanta suspeitas sobre uma negociação irregular de ativos bloqueados, em um prejuízo estimado em centenas de milhões de reais.
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Recentemente, a filha do colecionador, Sabine Boghici, foi protagonista de um esquema criminoso que resultou no roubo de diversas telas da própria mãe. Embora o quadro tenha sido recuperado pela polícia em 2022, o destino final da peça permanece sob estrita vigilância judicial. Agora, a viúva Geneviève Boghici enfrenta pressões para declarar o paradeiro oficial da tela aos órgãos competentes.
Negativa de venda e acusação de manipulação
Em declarações recentes, Geneviève Boghici negou veementemente qualquer venda da obra ao banqueiro Roberto Setubal. A viúva afirmou que o quadro “Sol Poente” nunca saiu de sua posse e que a imagem viralizada seria fruto de edição por inteligência artificial. Segundo ela, a tela permanece em local seguro e preservada como parte fundamental do patrimônio familiar, aguardando a finalização dos trâmites de partilha.
Por outro lado, fontes próximas ao mercado de arte indicam que a obra teria sido oferecida a Setubal, permanecendo temporariamente em sua residência para avaliação. No entanto, a transação não teria avançado justamente devido à insegurança jurídica do ativo. O banqueiro, por meio de sua assessoria, não comentou detalhes sobre a presença da peça em sua casa ou sobre o contexto da fotografia deletada.
Conforme a declaração de especialistas, a exposição pública de itens em litígio pode comprometer a avaliação de mercado e a autenticidade do acervo. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a Justiça exige agora que a família Boghici apresente a relação completa dos bens para viabilizar o inventário. O descumprimento dessas ordens pode resultar em sanções pesadas para os administradores do espólio milionário.
Disputa histórica e domínio público
A batalha jurídica por obras de Tarsila do Amaral não é um caso isolado e afeta diversos ramos da família da pintora. Atualmente, 56 descendentes disputam os lucros gerados pela exploração da marca e licenciamentos da artista, que faleceu em 1973. Todo o dinheiro arrecadado está sendo depositado em uma conta judicial até que um acordo definitivo seja homologado, garantindo a transparência na divisão dos lucros.
Os direitos autorais sobre a obra de Tarsila expiram apenas em 2043, quando as peças entrarão em domínio público. Até lá, qualquer venda ou licenciamento exige consenso entre os herdeiros ou autorização do juiz responsável pelo caso. De acordo com os dados do setor cultural, o faturamento com a marca Tarsila tem crescido 50% ao ano, o que intensifica a cobiça sobre as telas originais.
O Ministério Público acompanha o desenrolar das acusações de venda irregular para garantir que o patrimônio histórico nacional seja preservado. O caso Setubal-Boghici serve como um alerta para colecionadores sobre os riscos de adquirir peças de procedência judicial questionável. A tela “Sol Poente” continua sendo um dos maiores tesouros do modernismo, agora escondida do público por trás de muros de mansões e processos judiciais intermináveis.
