O cenário político em Brasília foi sacudido por novas inconsistências nas explicações sobre as reuniões entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo. O gabinete de Moraes precisou alterar uma nota oficial minutos após a publicação para corrigir informações e datas sobre os encontros.
A polêmica gira em torno da pauta dessas conversas. Enquanto Moraes afirma, em nota atualizada, que os encontros ocorreram em 14 de agosto e 30 de setembro para tratar exclusivamente da Lei Magnitsky (sanções dos EUA), reportagens indicam que houve contatos anteriores, em julho, focados na venda do Banco Master ao BRB.
Um dos pontos mais críticos é a transparência institucional. Gabriel Galípolo não registrou as reuniões em sua agenda pública no Banco Central, uma prática obrigatória para autoridades ocupantes de cargos técnicos e de Estado. O único registro de encontro entre os dois consta em 29 de setembro, mas refere-se a uma posse coletiva no STF, e não a um despacho privado.
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A defesa de Moraes sustenta que jamais houve pressão sobre o Banco Central ou intercessão em favor de instituições financeiras específicas. No entanto, a confirmação pelo próprio BC de que as reuniões ocorreram — mesmo sem constarem na agenda — reforça a narrativa de encontros paralelos.
A oposição no Congresso Nacional já utiliza as falhas na nota oficial e a omissão na agenda para articular um novo pedido de impeachment e a abertura de uma CPI. O foco da investigação seria o contrato de R$ 129 milhões do Banco Master com o escritório de advocacia da esposa do ministro.
O conflito de datas e a Lei Magnitsky
A mudança na nota de Moraes tentou ajustar o cronograma para que as reuniões coincidissem com as datas em que o ministro e sua esposa sofreram sanções financeiras internacionais. Contudo, a divergência com os relatos de julho — quando o processo do Banco Master estava em análise técnica no BC — permanece sem resposta clara.
Especialistas apontam que a ausência de registro na agenda de Galípolo é um desvio de conduta administrativa, mesmo que o conteúdo das conversas tenha sido amistoso ou técnico. A Lei de Conflito de Interesses exige que toda agenda com agentes externos seja documentada com pauta e participantes.
Conforme relatado por fontes oficiais, o Banco Central decidiu não divulgar notas detalhadas sobre os diálogos, limitando-se a confirmar que “manteve reuniões” sobre a Lei Magnitsky. Essa postura de “silêncio seletivo” aumentou o ruído no mercado financeiro e na política.
Pressão por transparência e desdobramentos
O silêncio de Galípolo e as correções apressadas de Moraes criaram um vácuo de informação que está sendo preenchido por cobranças éticas. O senador Alessandro Vieira já iniciou a coleta de assinaturas para investigar se houve favorecimento direto ou uso do cargo para fins privados.
A situação é agravada pelo fato de o BC ter vetado a venda do Master ao BRB em setembro e, posteriormente, liquidado o banco em novembro de 2025. A cronologia levanta dúvidas se a pressão atribuída a Moraes foi o que motivou ou acelerou essas decisões técnicas.
A manutenção da credibilidade das instituições depende agora de uma prestação de contas completa. A falta de clareza em atos simples, como o registro de uma data em uma nota ou de um compromisso em uma agenda, pode comprometer a confiança no sistema jurídico e monetário do país.